Planos de saúde, o ajuste do governo pode complicar
Planos de saúde, o
ajuste do governo pode complicar
Os planos de saúde privados estão,
faz tempo, fortemente pressionados por uma série de notícias ruins que impactam
diretamente as contas das operadoras. A mais grave é o fortíssimo desemprego
que assolou o País e retirou da massa segurada mais de três milhões de pessoas
que tinham planos de saúde privados e que foram obrigados a migrar para o SUS.
Se não fosse mais nada, a perda de
faturamento sem a respectiva queda simultânea das despesas já seria uma facada
no peito das operadoras. Mas o quadro vai muito mais longe e passa pelo aumento
da judicialização de quase todas as matérias relacionadas com os planos de
saúde privados.
De um lado pipocam ações para impedir
os reajustes de preço nos patamares que são feitos, de outro, cresce o número
de ações para que os planos custeiem despesas excluídas de suas coberturas e
uma terceira vertente é composta pelas fraudes e tentativas de fraudes contra
as operadoras.
Não bastasse isso, a inflação dos
custos de saúde está na casa dos 19% ao ano, muito acima dos 3% previstos para
a inflação oficial, o que, num cenário de crise, confunde a compreensão do
consumidor, que se sente roubado ou enganado porque os dois números estão
descasados.
De acordo com estudos sobre o
desempenho dos planos privados, mais de 20% dos pagamentos feitos pelos planos
são decorrentes de fraudes ou má gestão. Curiosamente, o brasileiro não
considera um delito grave emprestar sua carteira do plano de saúde para que seu
amigo seja atendido pelo convênio. Essa prática é apenas uma das muitas
envolvendo os planos de saúde privados. Outras passam por absurdos como a
realização de abortos e outros procedimentos fora da lei. Todas encarecem o
plano, na medida em que aumentam os custos sem a contrapartida do aumento das
receitas, que acabam sendo reajustadas no aniversário do plano, em detrimento
de toda a massa segurada que não tem nada com isso, mas morre com a conta.
A consequência é que o resultado
consolidado dos planos de saúde no exercício de 2016 não foi bom. Ao contrário,
algumas dezenas de operadoras estão na corda bamba, prontas para cair no abismo
porque não conseguem escala mínima para gerenciarem seus custos ou aumentarem
suas receitas.
E é neste cenário que uma nova ameaça
aponta no horizonte. O ajuste das contas públicas que o Governo pretende
realizar pode ter impacto dramático nos resultados dos planos privados no
exercício de 2017.
A queda das receitas e o ajuste
fiscal já estão atingindo diretamente as contas da saúde pública. Os hospitais
de São Paulo não estão definhando ou parando de atender porque têm enormes
problemas de gestão. A verdadeira razão é a falta de dinheiro para custear seu
funcionamento. Para garantir o mínimo indispensável para dar ao cidadão que
necessita de seus serviços um atendimento digno.
Faz tempo que dignidade é a exceção à
regra no SUS. As filas imensas que se formam nas portas dos hospitais e as
entrevistas de cidadãos desolados porque foram vítimas do atendimento precário
dado pela rede pública de saúde mostram a deterioração do quadro. De outro
lado, as declarações do Ministro da Saúde não deixam dúvida sobre a carência de
recursos e a impossibilidade de fazer mais. Simplesmente, não tem nem para o
mínimo, então como fazer mais?
O que os planos de saúde privados têm
com isso? Tudo. Na medida que a rede pública está próxima do colapso em grande
parte do país, o único lugar para se correr atrás de atendimento melhor para si
e para a família é para os planos de saúde privados.
Quem conseguiu permanecer no sistema
apesar da crise vai fazer o impossível para não sair, para permanecer pelo
tempo que conseguir, porque isso é humano. E a judicialização vai se acelerar.
E as sentenças determinado que os planos façam cada vez mais aumentarão de
frequência, porque isso também é humano.
O problema é que a matemática é fria
e insensível às dores e ao sofrimento dos homens. O aumento do uso e das
decisões obrigando atender o que está excluído e o desmoronamento da saúde
pública vão cobrar seu preço. E ele vai ser caro.
Fonte: Antonio Penteado Mendonça, O Estado de São Paulo – 14/08/2017
Fonte: Antonio Penteado Mendonça, O Estado de São Paulo – 14/08/2017
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